"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

domingo, 18 de dezembro de 2011

A quarta trombeta apocalíptica: o que revelam as reticências

Insisto nas reticências.
São a porta do inconsciente...
O primeiro ponto diz
Fim
(É a barra de recalque)
O segundo ponto diz
depois de um ponto
um novo conto
uma insistência.
Repetição de fins...
No terceiro ponto
ressuscito a intenção
da libido morta.
Me achego ao inominável e paro,
atônita.
Não sei o que dizer
Não sei nem o que sei
Mas continuo reticentiando...
Como quem não se retém na significância
das palavras.
Porque quer expressar a dor e deleite todo.
Porque quer esgotar o incômodo de finalizar-se num ponto.
Para além da palavra,
as reticências...
Ocultando e revelando a essência do indizível.
O silêncio destes três pontinhos
é o essencial do meu texto-vida.
Perscrutando este dizer misterioso
minha existência em palavra
se fará entendida.

(Raquel Amarante)

Oléo sobre tela: A luz vem da escuridão (Ubirajara Rodrigues - Clique em seu nome e conheça seu trabalho)

Aranhas sem teia

Impossível expandir este sentimento
 Esta teia mal feita
que não mobiliza
minhas oito pernas.
Nem ligo para os insetos...
Minha fome impugna meu nicho.

(Raquel Amarante)

sábado, 26 de novembro de 2011

Nada a acrescentar: Sobre a morte

Apressa-te pra chegar
a nenhum lugar.
A vida sentada espera o trem
que um dia vem.
Tal qual a morte existe
se a palavra aqui persiste
é que o ponto vida não fez-se final.
Desconfio que a vida é finita
e a palavra, imortal.

(Raquel Amarante)

sábado, 5 de novembro de 2011

Poeira

Como é difícil varrer a poeira
que é o que, na verdade,
organiza a casa.

(Raquel Amarante)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Catexia

E se a porta
não for um portal?
E se a alma
não for imortal?
E se o amor
for só poesia?
O que é verdadeiro, afinal?
Noite ou Dia?

(Raquel Amarante)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Mulher

Ser o que não se pode ser
avessa ao existir
qual buraco que engole os passos
qual vácuo, fissura
que não cabe em si.
Coser uma torneira no corpo
só pra desaguar um poder frouxo,
fingir um pouco de prazer com o outro
só pra sustentar um lugar de sentir.

A onipresença do falo
conjugou ao corpo não fálico
um lugar de anti-verbo
e a palavra mulher
fez-se vento
como o próprio pensamento
expatriado
não conseguiu compor-se em corpo.


O poder despojado do corpo
fez nascer fluidez visceral e inquietante
nos seios, vestidos e sentimentos
e a mulher fez-se dançante, errante...
no bravio mar de inconstância
num amar tempestuoso...
E toda falta de essência
conduz-lhe a dançar
qualquer música que se encarregue de tanger
um molde de existência.

Redundante é o vazio do ventre
completude é o germinar do feto
é o aceitar a falta
é o afaga a dor do parto
o partir do epitélio.
Mas há seres oblíquos
que abstêm-se de crias
de faltas,
de nexo...
Longínquos desgostos...

Renunciar a semente
jazer briofitamente
não ser mulher
existir na cadência de um corpo
feminino falocrático
despido de velcro
volver-se no mistério do
terceiro sexo.

Gerar um vazio mais complexo
engolidor
professor
de gozos mortíferos.

(Raquel Amarante)

Pintura: Mulher nua lendo, Robert Delaunay, 1915.

domingo, 16 de outubro de 2011

Citando Diva Cunha

Antes que esta lâmina
fira definitivamente
os legítimos anseios
façamos um pacto:
eu me entrego toda
meio a meio.

(Diva Cunha - Livro: Armadilha de Vidro)

Amava o amor

Por amor pude ver a ilusão
Não pensava ser tão pouco o esplendor
Não amava o ser
amava o amor.

(Raquel Amarante)

sábado, 15 de outubro de 2011

Nau frágil

E nem quero retornar ao barco
que se afundou.
Não sei nadar de amor...

(Raquel Amarante)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Citando Henriqueta Lisboa

Modelagem / Mulher


Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.


  Extraído de Pousada do Ser (1982)


  TELA: SUBMISSÃO - MIZA PINTOR (CLIQUE AQUI)

domingo, 7 de agosto de 2011

Ensaio poético sobre a Liberdade na visão Fenomenológica

O fenômeno liberdade disse pra sua essência:
_ Eu não existo sem você!
A essência coerente em ser
abandonou o fenômeno,
deixou-o desolado e sem entender.
Desde então,
a Liberdade é um fenômeno,
sem sua essência de Liberdade.
Pois essa não pode prender-se,
sequer,
a si mesma.

A essência da liberdade está sempre fora dela.
E a liberdade sempre vai carecer da liberdade em essência...

(Raquel Amarante)

P.S: Trata-se da minha visão fenomenológica sobre a liberdade.

Poema de amor gestáltico

No fundo da figura-fundo
no coração desfigurado
gestaltens fecham a esmo.
[Amar e ser amado].

(Raquel Amarante)

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Aliança

Eu sou uma criança
banhada a ouro
deixa eu ficar no seu dedo
para sempre.
Tira esse ferrolho do peito
e aceita.
Aceita lacrar nossas vidas
no inviolável pacote do destino.
Aceita calado feito
menino mudo.
E acata a expressão de alegria
que deve estar aí em algum lugar
do teu peito.


(Raquel Amarante)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Liquidez nº 2


_ Mas que prestativo!
_ Mas é só com você.
_ Oras, mas por quê?
_ Porque eu te amo!
          (...)
 Olhar de estranhamento.
_ Hã?
_ Namora comigo?
_ Você é louco! Eu nem te conheço!!!
_ Uá... É pra isso que serve um namoro...
_ Não, obrigada!

_Peraí, onde você vai com minhas compras?
_ Vem aqui pegar. Foi bem aqui que eu lhe ofereci ajuda, né. Tá aqui então, no chão!
_ Seu louco! Achei que era prestativo, mas... É um bruto!
_ É que eu não te amo mais!

(Raquel Amarante)

Acessem o primeiro diálogo *Liquidez : Liquidez?

Carta não enviada nº 16 - Até mais


Ian,

Como mitigar a dor de perder um amigo? Ter que abraçar as lembranças e aceitar o não mais... Onde é que você sorri agora? Como é difícil aceitar que você foi embora... Como é difícil aceitar que há espaços neste lugar que você preenchia... E de repente...
 Nossas mãos não mais se tocam. Nosso olhar não mais se encontra. Você não me enche mais o saco...
Há agora o vazio do seu silêncio... Seus dedos não mexem mais... Nenhuma palavra mais vai sair da sua boca espontaneamente...
Você estava aqui antes de ontem... Você estava vivo! Eu não acredito em tudo isso...
As pessoas ficam tentando achar as profecias...  Os rastros... E eu fico tentando achar você... Pra me tirar deste sonho malquisto, me dar as mãos e acordar comigo e me dizer: “Você é uma inocente! Não sabe nada da vida... Eu tenho que te ensinar tudo!”
Por que você tem que me ensinar tudo?
Por quê?
Lembro-me do nosso pacto... “sou papel e você ventania...”
Sou papel. Você, ventania... Isso soa estranho como nunca... Hoje, isso faz outro sentido... 
Como ventania você se foi, mas não me levou...
Quebrou o pacto.
Quebrou o pacto.

Quero achar você inteiro de novo...
Acaso não se lembra das palavras que me disse antes de sair da minha casa...
Você me disse: Até mais...

Até mais,

Stella

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas"



Carta não enviada nº 15 – Detentos em celas separadas


Jeferson,

O que lhe fez chegar a este estado de vida? Ando a procura de responsáveis...
A mesma sala, mesmas carteiras, mesmas parábolas ouvidas... Não se sensibilizou? 
“Menino! Atrevido!” Onde foi que você nasceu? Quem são seus pais? Quem é você?
Hoje só lhe vejo na TV! Televisionado. Como se isso fosse de grande valor...
Mas, de que valores falo? Chega de articular, deixa eu te ouvir, ser inaudível...
E sua voz não sai... Protesto? Escolha?
Em que lugar te colocaram que você ficou? Ou em que lugar me colocaram que eu não saí de lá?
Vamos voltar a ser crianças e começar tudo de novo e procurar nosso lugar...

Stella

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segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Poesia é sempre excesso

Poesia é sempre excesso.
Excesso de alma em corpo
Excesso de vida etérea
querendo dar luz
aos excessos da vida in matéria.

(Raquel Amarante)

Neurose

Que não seja real o amor desmedido
instaurado pelo fantasma
do coito interrompido.

(Raquel Amarante)

domingo, 31 de julho de 2011

Sobre a morte

O sol se põe sobre o corpo ainda vivo
O sol homenageia o sangue vermelho que no asfalto corre.
O sol é partícula de luz sobre a "escuridão" de quem morre.
O sol se despede e a noite surge sem alívio.


O sol já não existe
O sol nasce tão triste
O sol agora é só.

(Raquel Amarante)

sábado, 30 de julho de 2011

A mulher que não exprimia

à Ignácio de Loyola Brandão

Ela espremia com suas mãos, seu jeito materno, todas as laranjas que via... Passava o dia inteiro espremendo... Foi quando um dia, não tinha mais laranjas em sua casa para espremer e então viu-se espremendo suas próprias mãos. Seu marido, quando chegou do trabalho, não acreditou no que viu. Como pode, mulher burra! Esbravejou. Como pode espremer suas próprias mãos!!! Calada, consentiu a perturbação do marido, afinal, ele estava mais do que certo. No dia seguinte, a mulher de dedos machucados deu sua última espremida. Nada disse, apenas espremeu-se toda, virou suco. Seu marido ao chegar do trabalho notou sua falta e estranhou...
Ao ver o suco sobre a mesa, levou-lhe à garganta e bebeu sedento. Levado pelo descontentamento, não hesitou em dizer: Some e ainda faz um suco ruim desses!

(Raquel Amarante)

Conheça ou relembre de uma postagem irmã dessa (clique aqui >>): O homem que bebia cianureto


Imagem extraída das fotos do *Grupo de Ninguém, clique na foto para ter mais informações.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

“Agora é que são ELAS”

Acompanhe a poesia com esta canção:  Shania Twain - Man, I feel like woman


                   à Regina Navarro

Não me dê amor
estou farta desta convenção.
Dê-me tudo que termina em ÃO
Paixão
Contração e dilatação
Tesão
Coração não!
Não me venha com órgãos sem vértices...
Não me vista
Dispa
Não me toque
Frema
Mas,
não me provoque
um edema.
Desamarre seus preconceitos
Interprete meus cheiros
Enterneça sua resistência
                                             por um instante.]
Enrijeça seu tônus
e levante a bandeira
                                      deixai que ela seja a conquista]
Não deixe pistas
Deixe só o corpo...
Depois vá todo
Logo!
Sem nunca ter estado
Sem vanglória, sem vitória
Sem o lodo do seu medo
Sem amor nenhum
Sem pronome de posse
Sem olho no olho
Sem beijos de despedida
Vá feliz, Vá!
Vá procurar a imperatriz
que vai reinar em sua vida
A garota da sua história...
A que vai ser a mãe dos seus filhos.
(Raquel Amarante)

P.S:  Aos que pensaram ser o “eu lírico” de  uma meretriz, lamento muito,  é apenas o “eu lírico” de uma mulher isenta do olhar castrador machista.

                                                           **** Poesia feminina *****

à Regina Navarro


É preciso se libertar do casulo androgenado
É preciso entender este corpo de borboleta,
                                                           tão encerrado na visão  lagártica do mesmo... ]

Pra que servem estas asas?
Pra que servem estas asas?

(Raquel Amarante)

P.S 2: Neologismos... Por que não?

Cárcere confessional




Não prenda minha poesia no meu corpo, meu corpo não dá conta dos desejos da minha poesia.


Haikai : Universal

Não me entenda como confessional
Fora de mim
há mundo também.

(Raquel Amarante) 

Despir



Você e o vento
têm o mesmo desejo
levantar meu vestido.

(Raquel Amarante)

Liquidez?


                                                                     à Bauman e Sérgio Sant'Anna
  
É tarde de mais...
Mas senhorita Scott?
Não pode entrar rapazinho!
Mas eu paguei, está aqui meu bilhete!
Não pode entrar, está atrasado meia hora.
Senhorita Scott, só desta vez, eu prometo que não acontecerá novamente.
Não é assim que as coisa funcionam aqui.
Por favor senhora Scott! Eu preciso muito!
Tudo bem. Mas só desta vez.
Trouxe a camisinha?
Sim.
Ponha e entre.

(Raquel Amarante)


 Tela de João Alves -  A minha prostituta

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dumb (Mudo)


You’re a dumb, stupid.
Why can’t you like me?
Why do you just desire my body?
I need your heart.
I need be loved by anyone who gives me caresses and say beautiful words, and not a person who wants touch me and kiss me without love.
You’re a scoundrel but I don’t forget you.
Shit!

***by Natasha


Mudo

Você é um burro, estúpido.
Por que você não pode gostar de mim?
Por que você apenas deseja o meu corpo?
Eu preciso do seu coração.
Eu preciso ser amada por alguém que me dê carinho e que diga palavras bonitas, e não por uma pessoa que quer me tocar e me beijar sem amor.
Você é um canalha, mas não me esqueço de você.
Merda!

Textos e poesias em Inglês


Tenho a felicidade de trazer um novo tipo de postagens para o blog...

Textos em inglês de uma amiga querida: Natasha* (pseudônimo).  

Femininos e pujantes, seus escritos revelam os sentimentos “ao sabor do corpo” e “à flor da pele”...
Ao nível do aMar, esses nos fazem retornar ao estado plácido de encantamento de outrora, às nossas memórias... Mas também, às indesejadas decepções...
Chamo-os de femininos, por voz de “eu - lírico”, mas tais escritos enunciam o sentir... E o sentir não se distingue por identificações de gênero...
Que os caros leitores do blog façam uma boa degustação de tais textos.
Beijo poético.

Raquel Amarante

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Citando Mara Medeiros - "Marrom 4.3"

Leia esta poesia ouvindo:  Creep - Karen Souza

Da última vez eram 43...

Não sei dizer se passaram dias, meses ou anos...
Parei de contar.
Parei de calcular.
Parei de especular.
Começo a examinar.

Levo pro chuveiro, apertada ao peito, a sacola de planos.
Ou seriam sonhos?
Medonhos?
Tristonhos?
Risonhos?
Agora enfadonhos!

No fundo, bem no fundo, há um girassol amarelo.
Era pra ser rosa!
Era pra ser bossa!
Era pra ser fossa!
Era pra ser joça!
Era pra ser troça!
Era pra ser prosa!

A velha sacola se desmancha, pano podre,
Esvai-se entre meus dedos:
Desfaz-se um sonho inteiro...
Despencam os ponteiros...
Agora é pesadelo:
A tinta pra cabelo,
O ralo, o chuveiro!

Olho atordoada para o rio
em tom castanho 4.3.
Arrasta os fragmentos
Da sacola, dos lamentos,
E também dos tais momentos...
Pois que sim, houve momentos,
Uns de contentamentos,
Mais de constrangimentos.

Eu crio cegamente no mundo cartesiano.
Ilusão de ótica!
Ilusão de ética!
Ilusão caótica!
Ilusão patética!
Ilusão compartimentada!

Na tão preciosa sacola
O mundo era plano,
Redondo o sonho,
Fugaz o direito,
Servil o dever.

Percebo a contragosto, nada estava organizado.
Não há perfeição,
Nem compartimentos,
Não há rimas,
Nem contrapontos,
Não há ritmo!

Entre tufos de cabelos tintos em marrom perfeito,
Marrom 4.3 – Chocolate profundo,
Avisto o girassol, em amarelo profuso,
Contraste combinado à cor que engana o mundo.

O girassol sussurra, depois fala, depois grita:
“A vida é essa inquietude,
Essas incertezas, essa mistura de tudo...
Dos sonhos e dos planos,
Do querer, do desistir,
Do ser e do devir.
É esse infinito de horas
Que a tinta nos teus cabelos
Esconde do mundo inteiro,
Mas, não da tua alma.”

“Que desperdício!”,
Penso,
Enquanto morrem os contrastes,
Enquanto a chuva de água e de lágrimas
Cai, torrencialmente, sobre tudo...
Enquanto isto, penso, sobretudo,
Nas canções que não vou tocar,
Nos livros que não vou ler,
Nas bocas que não vou beijar,
Nas flores que não vou ver,
Nas chuvas que não vou tomar,
Nos amores que não vou ter,
Nas coisas que não vou realizar,
Penso, sobretudo, sobre tudo.

Da última vez eram 43...
Não sei dizer se passaram dias, meses ou anos...
Carrego pro chuveiro, apertada ao peito, a sacola de planos.
No fundo, bem no fundo, há um girassol amarelo.
A velha sacola se desmancha, podre pano, olho atordoada para o rio de tom castanho.
Eu crio cegamente no mundo cartesiano.
Na tão preciosa sacola percebo a contragosto, nada estava organizado.
Entre tufos de cabelo tintos em marrom perfeito, o girassol sussurra, depois fala, depois grita:
“Que desperdício!”



P.S: Terei o prazer de postar algumas poesias de minha amiga Mara Medeiros, a começar com esta linda descrita acimaClique em seu nome e saiba mais sobre ela.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Amor de passarinho



Deixa eu fazer meu ninho
em suas asas.

(Raquel Amarante)


:) Ouçam a música abaixo:
Nara Leão - Fiz a cama na varanda - Prenda Minha

O que é o amor?



O amor é um verso preso na garganta.
 Se não sai, angustia.
Se sai,
ou espanta
ou encanta
ou poesia.

(Raquel Amarante)

Video: Falando de amor -  Miucha e Tom


domingo, 3 de julho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Citando ELISA LUCINDA - "Quanto Mais Vela Mais Acesa"


Um dia quando eu não menstruar mais
vou ter saudade desse bicho sangrador mensal
que inda sou
que mata os homens de mistério

Vou ter saudade desse lindo aparente impropério
desse império de gerações absorvidas

Desse desperdício de vidas
que me escorre agora mês de maio.

Ensaio:

Nesse dia vou querer a vida
com pressa
menos intervalo entre uma frase e outra
menos respiração entre um fato e outro
menos intervalos entre um impulso e outro
menos lacunas entre a ação e sua causa
e se Deus não entender, rezarei:

Menos pausa, meu Deus
menos pausa. 

ELISA LUCINDA

Que arte é esta?



Atesto.
Arte é testa
na parede.
Arte testa
a parede.
Parede testa arte.
Parede quebra testa.
Testa derrama tinta na parede.
Misturam-se arte e testa.
Surge o Artesta
do sangue sereno que jorra na parede.
Mas,
que arte mais dolorida é esta?
Doar-te...

(Raquel Amarante)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Comunismo verdadeiro



De que adianta ostentar os túmulos
se uma mesma terra cobre os corpos.
Só há diferenças entre os vivos.
Só há comunismo entre os mortos.

(Raquel Amarante)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Feminino de amor



Perguntei a um professor:
_ E o feminino de amor?
E ele disse tão sabiamente:
Amor já é feminino...
 
(Raquel Amarante)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Carta não enviada nº 14 – Excerto do meu primeiro romance



Caro amigo Ernest,

Há um conluio entre os meus personagens, não sei o que fazer... Acho que não deveria mais criar... Não tenho o mesmo gozo. Eles eram meus amigos, sabe... Os mais íntimos! Esforcei-me  para abdicar do meu direito sobre eles. Anseio por uma liberdade sem igual, dei a eles este meu sentimento, não era para estes se revoltarem! Entendo-os, a revolta é um indício da não passividade frente a liberdade, entretanto, hoje chego a uma tangível conclusão: Não basta dar liberdade depois de ter criado, eles querem ser livres-intocados. Apetecem a auto-criação, sofrem por não tê-la. Sofrem por temor à morte... Acho que a auto-criação lhes daria um sabor maior de controle, sabor este que nós deuses-escritores sabemos não ser possível. Eles,  amigo Ernest, querem  tocar na criação para experimentar a eternidade... No fim, o grande problema deles é com o avantesma da morte, esta, que sempre lhes aprisionará do dissabor do príncipe da incerteza, o tempo.

Homero*

*Personagem do meu primeiro romance.

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas" 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Escurice Lispector




Se a palavra sangra o verso.
É feminina!
Vai homem abraçar seu protesto,
que a mulher escreve mesmo é com a vagina.
Escreve oh mulher no ápice da sinapse epiléptica.
Escreve para além da forma estética.
Escreve para além de qualquer forma...
Na imensidão da quarta dimensão,
diverge em nós, converge em nós, cega-nos!
Tal clareia convidativa da fala hermética
acende em nós, doce e poética
escuridão do caminho que também é perder-se.
Jazem poetinhas tolos.
Jazem bárbaros e mouros.
Ela, último espetáculo.
Último crepúsculo.
Da vírgula audaz.
Do lirismo intacto.
Da febre tão voraz
de alma,
de corpo,
do existir para além dos dois.

Sob sua palavra absorta,
exorto:
“Ou toca ou não toca”
Mas se tocar,
é morte em sentença
apoplexia em aorta.
Pois não se vive tamanho arroubo
em vida medíocre.


II


Cai a noite escura
Sobe estrela pura
agora é a sua hora.

(Raquel Amarante)


“Se eu tivesse mais alma pra dar
eu daria,
isso pra mim é viver...” 

(Linha do Equador - Comp.: Djavan e Caetano Veloso)


"Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite" (Clarice Lispector)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sede

                     
                                                   à Viktor Frankl

De vazio em vazio
se enche o copo
de nada.

(Raquel Amarante)

sábado, 28 de maio de 2011

Sabor de vinho



Minha alma é em verso,
meu verso é em prosa,
minha flor é a rosa,
minha rosa é o espinho,
meu espinho é o amor...
Sabor de vinho.

(Raquel Amarante)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Ensaio sobre a Loucura


A loucura é um caminhar no escuro, e quem caminha no escuro perde a luz que clareia os olhos, mas não perde a visão. Pior que perder a visão, é tê-la em abundância no escuro, instaura-se o mal-estar de enxergar o que não se quer ver, a cor da onipresente ausência. Antes fechar os olhos de súbito e refugiar-se na clareira imaginária de dentro, ou mesmo, entrever o pensamento de um escuro mais ameno, mais familiar, o escuro recôndito de todo ser.
 O escuro de fora é aturdido, rechaçado, totalmente isento de luz. É este o escuro pai imaginário do medo infantil. É este o escuro tido por descaminho, malquisto pelos “cavaleiros da luz”. É este escuro o lugar da procura, do tatear paredes em busca do apagador que acenda o sentido, tão mais desejado que a vida!
Quem anda no escuro sabe mais do que nunca que não se vai adiante no fundo negro sem fantasiar o caminho, sem precisar de apoios, sem “trombar” nos móveis e monstros. Vencidos os primeiros estranhamentos do escuro, refratário de cápsulas vaga-lume com efeito breve e viciante, mergulham num universo de sentido pleno, não isento de escuro, não isento de dor. Só o silente escuro permite que se ouça vozes desesperadoras que gritam na vizinhança (“Vozes Veladas Vozes”). Só no escuro que se vê para além dos olhos, e que se crê tanto no que se vê, que montanhas são removidas por meio destes. Só o escuro apaga a visão superficial, do aparente, e aprofunda na crueza tão virgem e vital do ser. O escuro não cega, o que dizer da luz?.. É Este escuro capaz de suscitar um tato tão mais sensorial que o próprio sentir corporal.
É possível desenhar tão melhor o sentido da luz no escuro... Isso porque a luz sem escuro desconhece seu apelo em ser o que é. Os lúcidos nunca entenderão o escuro, não o enxergam, estão tão cheios de luz! Os que caminham no escuro não enxergam a luz, mas, o que é a luz que atravessa os olhos senão alheia ao que vê? Uma luz de outrem, uma luz em terceira pessoa, uma luz reflexo-irrefletida... O louco tem sua luz própria, e ela pisca, e brilha, e induz.

Os homens que não podiam subir em palanques
Narrador 1: E eis a normalidade ensaiando seu discurso de posse do homem, quando a loucura o toma por inteiro e este começa a divergir dos outros. Na cor da pele e cabelos ressoava uma insuportável diferença, era inconcebível tê-lo no meio de nós, normais. Internado, viu-se no lugar que lhe cabia, onde não poderia incomodar ninguém.
Narrador 2: Num dia de sol claro, em meio ao banho de sol, este homem sobe num palanque, (banco) da sua prisão, como se subisse no palanque vida! Em meio à multidão de seguidores, dois,  e com uma voz estrondosa, grita: Os loucos devem ser mantidos fora de alcance de palanques! Logo, um funcionário da prisão, tirou-lhe do seu tablado e disse: Então venha cá, Napoleão, venha cá... Ninguém deu conta da normalidade do louco...  Enquanto isso, alguns governantes e religiosos sobem em palanques em favor da Luz. “Guiam” os povos. Muitos estão cegos de lucidez!

(Raquel Amarante - 2011)

sábado, 21 de maio de 2011

Carta não enviada nº 13 - Eu não quero respostas




Sofia,

Sem  mesmo saber que lhe perguntei, você me respondeu. Mas não era sincronia. Sabia que ia chegar a hora de você dizer desta questão...
Mas, sei lá... Ainda soa como se não tivesse respondido. Não gosto de respostas! Mesmo as suas... Quem diria... Doravante, perguntarei menos...
Mentira! Não consigo... A dúvida é minha arte. Nada que faço advém de respostas... Você também é uma pergunta, mesmo buscando, também não quero respostas que dizem de você. Antitético isso, sim... Como todo não querer é um querer...
Abraço fraterno,

Stella  

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: http://raquelamarante.blogspot.com/2011/03/cartas-nao-enviadas-n-0.html

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