"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

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domingo, 17 de abril de 2011

Carta não enviada nº 12 - Foi-se ou Foice e ficou



*Mas eu preferia que não tivesse ido, ou que não tivesse ficado
assim...
     (...)

Davi,

Eu sei que esta carta não chega mais. Eu sei que seus olhos vermelhos eu não tenho mais. Eu sei, que há dias em que a gente não acorda mais. Mas... Saber nada alivia! “Entender é sempre limitado”¹ e viver, é ter raízes frouxas, eu sei! A gente vai deixando que a enxada de cada dia capine em nós os excessos, para renascermos mais uma vez, complexos matos. Daí, nos rancam pelas raízes e plantam outros, apropriados - por certo tempo. Mas... Mais difícil, sabe, mais difícil, mesmo, é compreender os que não as criam. Não criam raízes...
Você nunca me disse nada, nenhuma frase. Seu silêncio e olhar sorumbático – sempre, sempre pareciam dizer tudo.
Você e as paredes... Sempre colado nelas. Sempre de camisa branca. E as paredes brancas... Eu confundia você com elas... Com as paredes!
Você, mais uma vez, não disse nada, não deixou carta. Você, que sabia escrever tão bem... Nenhum desenho você deixou, nenhuma marca. Crime perfeito contra si, contra mim, contra todos! Vejam só, minha indignação... “Contra”, quem sabe você não chamou de “a favor”. E o que chamo de burrice, quem sabe, não chamou de amor     próprio.

Sem entender.
Tentando entender.

Stella






¹Clarice Lispector

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: http://raquelamarante.blogspot.com/2011/03/cartas-nao-enviadas-n-0.html

4 comentários:

  1. Uau... Estou eu aqui tentando entender o que também não entendo! Nó! Linda carta.. Ferina, crua e certeira! Adoro a sinceridade! Obrigado por isso! E por todo o resto.... Luz e Paz!

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  2. Foi-se, penetrante ; Foi-se profunda; Foi-se, simplesmente, bela, sua enxada capinando a memória e revolvendo com cuidado a terra do convívio de outrora e ausência presente hoje, é isso sim, Davi. E lavrar, com maestria, a palavra, na terra movediça, semeando e colhendo seus frutos aos leitores que ora deles se fartam: "... e viver, é ter raízes frouxas, eu sei!" ... "Mas... Mais difícil, sabe, mais difícil, mesmo, é compreender os que não os criam."
    Que pensamento, Stella, em um só tempo, atormentador e extraordinário, sim.

    P.S.: Aliás, pra bem tentar entendê-lo melhor vou-me posicionar furtiva e estrategicamente em uma das moitas de capim nascidas e criadas nessas existências da vida, por isso, peço e te advirto pra que tenha cuidado com a enxada ou com foice mesmo na poda desses gustativos capins...

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  3. Agradeço estes comentários tão geniais e autênticos postados aqui!

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