"Quem medirá o calor e a violência do coração dos poetas, quando capturados e aprisionados no corpo de uma mulher?" Virgínia Woolf

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Carta não enviada nº 16 - Até mais


Ian,

Como mitigar a dor de perder um amigo? Ter que abraçar as lembranças e aceitar o não mais... Onde é que você sorri agora? Como é difícil aceitar que você foi embora... Como é difícil aceitar que há espaços neste lugar que você preenchia... E de repente...
 Nossas mãos não mais se tocam. Nosso olhar não mais se encontra. Você não me enche mais o saco...
Há agora o vazio do seu silêncio... Seus dedos não mexem mais... Nenhuma palavra mais vai sair da sua boca espontaneamente...
Você estava aqui antes de ontem... Você estava vivo! Eu não acredito em tudo isso...
As pessoas ficam tentando achar as profecias...  Os rastros... E eu fico tentando achar você... Pra me tirar deste sonho malquisto, me dar as mãos e acordar comigo e me dizer: “Você é uma inocente! Não sabe nada da vida... Eu tenho que te ensinar tudo!”
Por que você tem que me ensinar tudo?
Por quê?
Lembro-me do nosso pacto... “sou papel e você ventania...”
Sou papel. Você, ventania... Isso soa estranho como nunca... Hoje, isso faz outro sentido... 
Como ventania você se foi, mas não me levou...
Quebrou o pacto.
Quebrou o pacto.

Quero achar você inteiro de novo...
Acaso não se lembra das palavras que me disse antes de sair da minha casa...
Você me disse: Até mais...

Até mais,

Stella

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas"



5 Comentários:

Eraldo Paulino disse...

Se já dá um aperto no coração ler isso mesmo sem saber exatamente ou ter vivido o que aconteceu...
O fato é que é duro demais ter que se despedir de quem se ama.

Bjs!

Anônimo disse...

A dor não tem palavras,
ouçamos humildemente o silêncio da sua eloquência...

Cara Stella, reconfortamo-lhes solidariedade, comprimidos na mesma dor, cruel e impalpável, debruçados na mesma dúvida, perene e aflita, e na busca revoltante, companheira ou solitária da inexplicável razão da vida e da morte: "Quebrou o pacto". Ou será a morte mesmo, cláusula do pacto da vida?

Imperscrutável a morte e seu destino, bem sei que não sabemos.
Cara Stella, contigo ontem Ian ia e vinha, mas hoje, você fica, e ele vai... papel, ventania e Ian não mais iam...
Saiba, porém, recolhendo as lágrimas de dor e de fúria do seu coração para delas fazer regar a flor da mais linda canção, que Ian permanece vivo dentro de você e em seu lado continua cuidando de ti nas entrelinhas do papel e na voz e nas asas da ventania. Pois como disse certa vez um filósofo sobre a amizade, que "o amigo é alma que habita dois corpos."

Viva, e viva bem, pois a vida quer seguir...

Raquel Amarante disse...

Amigos,

É tão bom poder compartilhar com os amigos uma dor e receber palavras tão sensíveis e reconfortantes...

Agradeço Muito!


Stella

Teresinha Oliveira disse...

Como entender a morte, se nem da vida damos conta? Saída não há. Porém, podemos guardar a pessoa conosco na lembrança; do filme preferido, da gargalhada, da viagem que se fez junto, ou não, porque não deu tempo, do cheiro, do abraço...Há tanto que permanece.
De repente, você se pega até conversando com ele...E quem poderá jurar de pés juntos que estás falando sozinha? Nisso tudo acredito e faço, com meus amores que agora, num mundo paralelo vivem. Beijos.

Raquel Amarante disse...

Amei Teresinha... Que lindo..

"Num mundo paralelo vivem juntos"

bjos

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