"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

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sábado, 3 de novembro de 2012

Carta não enviada nº 19 – Encontro Marcado, com o eu aqui de dentro


Fábio

Eu sinto muito. Sou uma xícara com asa quebrada. Não poderia dar-te meu braço em uma dança ou na simples companhia de um caminhar. Eu já machuquei muitos meninos e você é tão lindo... Mas, sensível como os outros... Ando repleta de sentimentos ambíguos, acelerados, mal digeridos. É tudo tão oculto, tão vasto, tão efêmero... O céu, a noite, o coração... De que adianta tantas flechas e corações abertos se eu não tenho boa mira. Desculpe minha indiferença. Você é tão gentil, seus olhos riem, dá até uma vontade de chorar... Moço bonito, infelizmente não dá... Eu até me comportei bem. Vesti-me de lady, delicada e meiga, pisquei da forma certa, mas, eu preciso organizar as cartas do tarot que deixei em cima da  minha cama. O golfinho... Ele sempre prediz um novo mergulho, ele sempre me leva para as águas certas, eu preciso entender estes sentimentos todos... Entender... Vagueio pelo não saber e sempre chego no mesmo lugar, a minha necessidade de entender. Algo dói muito, meu caro. Não posso simplesmente te beijar, te devorar como se fosse a última noite. Afinal, de que adianta salgar a língua com o suor do corpo do outro se nem é possível estar lá depois, recolhendo o sal das lágrimas, aquele que só os travesseiros dão testemunho... 
O dia estava transcorrendo tão perfeitamente e eu, na exuberância dessas propostas todas, mas, me dei conta de que ainda não me conheço. Quando estávamos sentados e você me olhava e perguntou como eu me vejo depois de formada, eu quis chorar. Um aperto sofrido ocorreu em meu peito, engoli a seco... Eu me lembrei dos meus planos antigos, dévà jus invadiram meu cenário aqui de dentro...(...) O modelo “mais sóbrio” de família possível, o mundo quadrado... Eu queria um bom conhaque, uma bebida de efeito rápido, uma tesoura, um lexotan, ouvir Raul em outro sistema planetário... Há perguntas que paralisam, essas são as mais importantes da nossa existência. Por alguns meses eu havia esquecido da minha existência... Existir é sempre tão inusitado, é deparar-se com a finitude, com os medos, as incertezas. Eu preciso entender a verdade desta existência, meu caro. Não quero viver na exacerbação de sentimentos, eu quero o sentido, a direção, o motivo. “Perder-se também é caminho”, mas, tal máxima só tem me levado para fora de mim e eu não sou assim... Absorta, sou mais de dentro...
Gostaria que não se importasse. O encontro de amanhã, eu marquei comigo mesma.

Stella


A música que diz tudo... Pra ouvir com a alma:
 

Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas" 



2 comentários:

  1. Vai, Stella, conhecer-te a ti mesma
    no recôndito do seu eu, só seu.
    Descobrir também o que te faz sentir a caçadora de ti e "conhecer a verdade desta existência",
    tão movediça, infinita... irreal.

    Terá ela 'sentido', 'direção', 'motivo'?

    Pois, "perder-se também é caminho"
    na criação imperfeita e conhecimento infinito do livro do seu desassoss... ego...

    Mas não estará sozinha, porquanto
    seu "Eu... que tanto quer encontrar
    uma pessoa como ti
    a quem tu possas confessar
    alguma coisa sobre ti"
    há de encontrar em ti, em Fábio, talvez, e no Eu universal do tão só seu eu...

    P.S.: Feliz em lhe rever, querida Stella, ainda que tão absorta e não querendo companhia que não seja a sua mesma.
    Um abraço.

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  2. Quel, sem comentários a mais...
    Estou atônita.
    Esse post, essa carta beirou e muito a exuberância.

    Beijos.
    Fernanda.

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