"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

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quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ensaio sobre o amor nos tempos de propriedade privada

Fico pensando... Quais espíritos a gente alimenta? Quais amores a gente aumenta? Quais saudades são impossíveis de se distrair? Quais livros nos chamam a atenção na livraria, na biblioteca...? É o amor e o que amamos que nos caracteriza nesta vida. Nosso espirito é tão livre e abissal que temos, por vezes, que contorná-lo de algumas indicações e contra-indicações.

Um velho, uma vez, me disse: Padece o que tiver de padecer por amor, mas jamais deixe de amar. 

Meu camarada, e tem como? Não amar? Como é isso?

Minha filha, vocês jovens, tatuam o amor nas costas, escrevem cartas derramando corações, vocês são só o engodo! O amor é tão maior que tudo isso que essa minha barba de 40 anos de contra-cultura “arrepeia” e ora interroga: quem vocês amam e por quê?

Pense menina, no afeto, que se desdobra. O afeto é a dobradiça da porta, ele a movimenta, abre, fecha. Se não houver a dobradiça, não há porta. Mas há quem encha esta porta de trancas, cadeados, placas de perigo. Portas não foram feitas para fechar, foram feitas para abrir.

_Creio estar equivocado, senhor... As portas sinalizam que há algo de particular sendo guardado, um território, com donos. As portas não podem abrir para quem quiser, minha portas eu não abro a qualquer um.

Foi imputado a vocês jovens um grande mal. O de que o amor é uma propriedade privada. O que há na privada, a não ser merda? 

Brinco, mas se não é capaz de ver para além dos muros da sua casa, minha cara... Se ama o que soa belo apenas, não traz a consciência do que é mesmo fonte de vida. Quando pergunto a quem você ama não é retorica... Para quem você fecha sua porta? 

Eu não deixo minha porta aberta para todos, nem os programas do governo, que se diz democrático, fazem isso. (risos)

Todos é um conceito inatingível, que nos afasta do que há de mais próximo, pois parece impossível... Digo de manter sua porta entre aberta, capaz da ternura, capaz da febre juvenil de amar sem medida, mas, capaz também do amor a quem lhe fomenta um notável descrédito, a quem seria incapaz de um negócio com essa sua propriedade privada, até que não hajam propriedades privadas e nem portas e sejam livres os amores...

Eu acho mesmo, senhor que não sei o nome, acho que o amor sim é um conceito inatingível...

Você tem boas capacidades de amor, mas você está muito patológica, menina. Veja bem, o amor tornou-se propriedade privada. Segue, derrubando-a. O amor não precisa de cercas. Por muito tempo eu lutei contra o sistema político que nos outorga o direito ao ‘ter, mantendo o ter’. Hoje vejo que ter é sim preciso, mantendo, sobretudo, o ser... Não vejo como vãs as lutas materiais. São propícias nos tempos propícios. Mas não só de pão vive o homem disse um sábio... Esfacelar a propriedade privada começa em nós. Amamos de forma desigual e pleiteamos direitos à igualdade... Se o amor começa em nós, porque tantas lutas para galgar mais e mais fora de nós? As pessoas se fizeram escravas da propriedade privada, do amor aos seus, apenas... O trabalho é a grande crucifixão dos nossos tempos, mas, sem qualquer apelo a uma salvação, é demasiado pena... Pena de morte... Repara nos seus rins, eles vão te matar... Mas você, só se preocupa com ganhos, com o olhar do outro, porque nesta sociedade de privadas, não basta tê-las, é preciso que sejam banhadas a ouro, para sei lá, as fezes boiarem mais bonitas, por certo...

O amor começa no cuidado! Cuida assim, de si. Pare de se matar. Isso é urgente! Os alicerces da sua propriedade ficarão, você não. Esse cuidado com você é o primeiro passo para cuidar de qualquer coisa que tenha vida. Respira melhor os teus ares. 

As pessoas temem parar, parar nos tempos atuais é algo melindroso, é perder tempo, e tempo é... Prefiro não dizer. Eis uma crença de grande bestialidade social a nós imputada. Pare, se aquiete, não confunda lugar ao sol com morrer chamuscado. Apreende o amor querida, que está no cuidado. Não jogue seu amor na privada. Se egoísta o for, já não é amor... Cuide das dobradiças que ainda existem, desses afetos inveterados que travam suas portas.

Há em extensas crenças a máxima de que o amor no seu afã se concede no paraíso, no Reino do céus. Cuide do seu céu, que não está na metáfora do horizonte ou do amanhã. Este amanhece com você a cada dia. Seu ser é seu céu. Cuide dele e faça deste um lugar de cuidado, pois então nem portas terá, mas portal, sempre aberto e capaz de receber e dar amor indistintamente. 



(Raquel Amarante - 20/07/2014)

All you need is love -  The Beatles

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