"Quem medirá o calor e a violência do coração dos poetas, quando capturados e aprisionados no corpo de uma mulher?" Virgínia Woolf

sábado, 25 de junho de 2016

PRETA

Eu que não sei sua história
me proponho a escutar
Diga... Diga o que quiser dizer.
(...)
Seus afetos... Suas memórias...
suas crenças,  alegrias, suas lutas
suas sagas, suas iras, seus temores
seus desejos,  poesias,  seus amores,
suas revoltas, sua fé, sua origem
tão pura
simplesmente sua!

Eu, que te desconheço
não tenho do que lembrar
não te faria notícia
de jornal qualquer
eu que nunca fui
na tua pele - mulher
eu que não perdi nada
nesse jogo entre nascer e crescer
eu que não velei  negros corpos
filho - sobrinho - irmão - pai.

Eu que não tenho palavras! (...)

_ Eu tenho!
   E lhe falo
   quero celebrar o ayo de PODER SER PRETA!





domingo, 19 de junho de 2016

Estranha

                                   à Thereza

quando me dizem: estranha
sinto-me dentro de um oculto vestido
com abotoaduras dorsais incapazes de alcance
alfaiataria manual, molde antigo.

estranha, quando me dizem,
sinto a imensidão desse adjetivo...
sei que não caibo no pasto, na tendência
vivo interrogando o porquê de estar vivo...

quando estranha, me dizem
sei que estou aquém do esperado
feito vestido rasgado por anárquicas traças.
quem me costura? quem curará minha loucura?

sei também que eu me estranho
como quem se olha no espelho
               no escuro
               - vê o vão -
guardo o incompreensível na lembrança
escrevo na esperança de advir algum elo...
desse já desbotado, mas belo - Mistério -
-linho-onde-se-fia-inspiração-

(raquel amarante)

Salvador Dalí - 1945 - "Mi mujer desnuda"

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