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Quem sabe

Quanto tempo leva para apagar o desejo? Quanto tempo leva para as amnésias, tão alcóolicas, fazerem efeito? Quanto tempo leva para o pescador pegar o timo da razão e vencer o mar? Não importa quanto tempo demore para picotar as memórias em ínfimos pedaços De repente, tão de repente O corpo sente de novo e o corpo é sentido como jamais foi! Outra vez. Outra vez água fervente lama, lodo, chama inferno! Inverno... O frio e o calor Não adianta achar que se está imune A certeza é uma mãe que só pune Eu tenho fome e sede E é como se eu caminhasse sem ser vista nas proximidades da Estação da Luz de SP perdendo o jeito de viver. Morrendo de amor por inteiro. Quem sabe, talvez, a palavra, me salve. Outra vez. (Raquel Amarante)

À sombra das mangueiras

Os rascunhos que fazíamos toda aquela história em diagramas dá pra deixar pro vento. os anéis e alianças só existem pra cair no chão. ainda mora, à sombra das mangueiras algumas cicatrizes de tempo invisíveis em evidência. Alguém chama meu nome lá fora e eu, aqui dentro repetindo as mesmas vestes inadequadas Força do hábito. Coisa de velho. Eu não tenho a menor ideia de como usar as espadas que tenho. Ainda há fragmentos de assassinato na memória. Mas é preciso alguma revolução pra mudar essa história. Cores rubras Lágrimas alguma fé, quiçá, aquela canção de toda hora. Talvez as horas Me tornem sensível Talvez a natureza Me leve há alguma fluência Talvez a razão Me reconduza impassível Talvez, quem sabe, o horizonte Me transfigure. (Raquel Amarante) Idade do Céu - Paulinho Moska

Redesenho

Pobres rascunhos de vida esquecidos numa gaveta qualquer que insistem em avisar  que a potência não pode acabar no extremo de nenhum lugar. Pobres rascunhos de vida com cores tão vibrantes e festivas que insistem em carnavalizar. Se não há liberdade e invenção, O coração se esvaziará... Pobres rascunhos de vida quando têm medo da juventude, da Diversidade e do Desejo E seguem em vida tolhida Num destino trôpego, amiúde. Traz à tona os papéis tão livres, tão essenciais. As tintas, os pincéis os poemas, o sabor a beleza, o redesenho. Só assim...

1995

Desconfio que de vez em quando é necessário pertencer a este vazio... Aos tons mais agudos do piano À melancolia da noite fria Ao silêncio À fantasia Acho que sou sim cristã em demasia. Sem cruz na parede Mas com cultivo de alguma resignação. algumas lágrimas alguns segredos Todos muito solenes Todos muito pátrios Todos muito presentes e alguma lembrança, sim das paredes. Às vezes eu preciso me lavar por inteiro As vezes preciso chorar feito mãe quando recebe a notícia do filho... Eu, desenharia tudo de novo. A escola, as crianças, os livros Eu viveria como vivi Tenho muitas memórias que já esqueci. Mas eu tenho tudo muito guardado. Num baú Num espelho Num aconchego. O velho espaço minúsculo no quarto O amor tão maiúsculo, tão vasto As palavras ralé Porque jamais As palavras não dizem As palavras viram poeira Não há palavra! Não saberiam girar como bailarina Não saberiam deslizar a tinta no quadro Não saberiam se aplicar ao que se sente Nu e ...

Sobre a morte e a Vida

Deve haver algum trunfo ao morrer. Mas eu não quero que estas palavras tenham poder. Deve haver uma cor diferente que eu me recuso a enxergar. Preferimos o conforto de onde a gente tá, e o amor! Ah, o amor... O amor (re)ssuscita! O amor é o que nos faz vivos! (Raquel Amarante)

Algum crepúsculo

Saudades daquela mulher que em mim existia. Um pouco mais vulnerável Um pouco mais envolvente Um pouco mais fantasiosa Um pouco mais apreensiva Uma mulher repleta. Primavera inteira de dúvidas Saudades daquela mulher que em mim existia. Um pouco mais competitiva Um pouco mais insegura Um pouco mais relax Um pouco mais alheia Uma mulher pela metade. Morava nela mesma Do ventre daquela mulher o enigma Na varanda ela acompanha algum crepúsculo. (Raquel Amarante)

Vida agreste

torrões, glebas, açudes solo calcário. eu planto eu rego eu colho sementes rudes água pouca sol extraordinário. eu fui construindo de argila a esperança viver, sempre me fui sozinha sem ter ajuda. mais vale a fé em Deus que em galho seco a luta de quem não cansa tem valentia que acende a vela de noite que mantém ela acesa de dia. (raquel amarante)