Pular para o conteúdo principal

Aqui jaz



Aqui jaz
Sobre o pé de mangueira
a corda
Acorda!! É o grito desesperador de sua mãe.

Aqui jaz
O silêncio do pai
negando o acontecido.
Aos prantos por dentro
de um olhar, ressequido

O alcanso com o violão.
Não!
Você não está mais aqui!
Você que se privou de si...


Aqui jaz
Os meus dedos que pressionam
as cordas melancólicas..
Melancólicas, as cordas
ou o meu coração?


Não é preciso partitura
a esta altura da vida, que se lança
A tablatura é o bastante nesta canção.
que a compreensão não alcança.


Aqui jaz
Meus sentimentos desencontrados
Em versos angustiados
Anti-algo
hostil, ameaçador, agente motivador

Aqui  não jaz
a homofobia,
ou os demônios atribuídos ao ato.
Ou as especulações de um fim inato.

Aqui não jaz
um suicídio.
Uma narrativa que começa no fim
Tudo aqui tem certo cheiro de estopim...

Aqui, agora, jaz
Um choro, já com o violão guardado
Da simbiose de um sofrimento não partilhado

Aqui jaz, no fim
O olhar rechaçado sobre o livro:
 “Eu não tenho que resolver tudo”
E um procedimento cartesiano sobre a vida
Que ainda não concebeu direito
a morte.

Raquel Amarante N.

Comentários

  1. Gostei e entendi :) Morte é coisa estranha mesmo, e cada um a encara sobre diferentes prismas. Até a não-morte que a ronda adquire significado. Teresinha Oliveira.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Você pode fazer comentários mesmo sem ter uma conta do Google ou sem ter um site. Basta clicar em Nome/URL, colocar seu nome e comentar. Sejam bem vindos! ;)

Postagens mais visitadas deste blog

Escurice Lispector

Se a palavra sangra o verso. É feminina! Vai homem abraçar seu protesto, que a mulher escreve mesmo é com a vagina. Escreve oh mulher no ápice da sinapse epiléptica. Escreve para além da forma estética. Escreve para além de qualquer forma... Na imensidão da quarta dimensão, diverge em nós, converge em nós, cega-nos! Tal clareia convidativa da fala hermética acende em nós, doce e poética escuridão do caminho que também é perder-se. Jazem poetinhas tolos. Jazem bárbaros e mouros. Ela, último espetáculo. Último crepúsculo. Da vírgula audaz. Do lirismo intacto. Da febre tão voraz de alma, de corpo, do existir para além dos dois. Sob sua palavra absorta, exorto: “Ou toca ou não toca” Mas se tocar, é morte em sentença apoplexia em aorta. Pois não se vive tamanho arroubo em vida medíocre. II Cai a noite escura Sobe estrela pura agora é a sua  hora. (Raquel Amarante) “Se eu tivesse mais alma pra dar eu daria , isso pra mim é viver ...”  (Linha do Equador - Comp.: D...

Será se...

Uma formiga agonizante na pia remexe as pernas como se pedisse ajuda. Luta para viver. Luta para escapar. Como se desculpar com uma formiga que escolhe um caminho que ela nunca imaginaria que pudesse lhe matar? O que leva essa distraída, essa louca dessa formiga a se aventurar num braço humano assim?! Seria pra fugir da água? Seria para fugir de outro tipo de morte? Perdoe-me formiga, quando dei por mim já lhe tinha esfregado minha mão direita sem jamais imaginar que lhe atingiria os órgãos vitais. Não, não me sinto alguém maior, superior, um deus capaz de recortar seu ciclo de vida. Na verdade, sinto uma fatalidade tão profunda que parece que era minha vida ali extraída. Na verdade, me dói, você viu! Você viu que eu tentei de modo bem desajeitado uns primeiros socorros. Eu tinha uma esperança enquanto você mexia os membros inferiores de que haveria possibilidade de reatar a vida, você lutou por ela! Quem diria, nem eu, nem você, que a vida findaria ali, no mais simples e nu do cotidia...