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Vida e outras drágeas

de tempos em tempos
sinto o querer
vadio
pleno de si
resolveu viver aqui...

querido querer,
nem te quero
nem te obrigo
só mesmo um rosto amigo
eu levo.

presença é falta
navego no oblíquo do eu
quem dera eu ser meu ego
quem era você, que não eu?

os livros
deliberam.
meu ciclo vermelho é vivo
me acho no traço lento
num tempo escasso
de estar vivo.

Mãe, mulher,
temo não sê-la.
mas se fosse,
nem quereria.
eu me gosto demais
pra não me dar alforria.

Vade Mecum
porque talvez chova
não tenho piedade das nuvens,
enquanto elas choram
me alegro.

Amanhã
teremos a anatomia de velhos
estarei me perguntando por onde andei.
por hoje,ando.

Carisma
é coisa pra poucos
coisa de signos do fogo
a vida não me deu trégua
teria que nascer de novo.

Mas nasço
todo dia
quando durmo.
dormir, esse hábito sempiterno
que lembra o útero materno.

Um dia eu fui boa
Em todos os outros eu quis ser
Mas a gente erra sem saber
e mesmo sabendo, sem querer
e mesmo querendo, é por amor
não me pergunte a quê
errar é mesmo sinônimo de nascer...

Persisto no erro
Vivo.
Viver é tão definitivo...
que eu me pergunto se vale a pena
ter vindo da costela.
e amar no infinitivo.

A gente reclama
mas a vida tá boa
tem até sinal da Tim.
Se um dia a vida tiver muito chata
vou buscar uma telenovela
pra esquecer um pouco de mim.

(Raquel Amarante)



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