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Estranha

                                   à Thereza

quando me dizem: estranha
sinto-me dentro de um oculto vestido
com abotoaduras dorsais incapazes de alcance
alfaiataria manual, molde antigo.

estranha, quando me dizem,
sinto a imensidão desse adjetivo...
sei que não caibo no pasto, na tendência
vivo interrogando o porquê de estar vivo...

quando estranha, me dizem
sei que estou aquém do esperado
feito vestido rasgado por anárquicas traças.
quem me costura? quem curará minha loucura?

sei também que eu me estranho
como quem se olha no espelho
               no escuro
               - vê o vão -
guardo o incompreensível na lembrança
escrevo na esperança de advir algum elo...
desse já desbotado, mas belo - Mistério -
-linho-onde-se-fia-inspiração-

(raquel amarante)

Salvador Dalí - 1945 - "Mi mujer desnuda"

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