"Quem medirá o calor e a violência do coração dos poetas, quando capturados e aprisionados no corpo de uma mulher?" Virgínia Woolf

domingo, 12 de agosto de 2018

Pai (a meu pai Antônio)

Me reconheço na brochura
de um caderno não escrito,
não lido, mas dito.
Concreto!
Pensar em você é ter na emoção
 um teto.
Posso chorar por te amar, me permito,
dizer talvez o que nunca foi dito
Bem dizer tudo que você é por ser
tão simples e tão complexo!
Por todo quanto amor desceu em seu suor
Pelo nó que dá quando enxergo na sua história
tal sobrevivência
tal fidelidade
tamanha verdade!
Honestamente,
me engrandeço por ser sua semente.
Nós dois somos áridos e ávidos
Basta uma gota no solo quente
amamos tão profundamente!

Àquele que me ensina sobre ser tão
desejo a chuva mais serena e os mais doces araçás!

Te amo, meu pai!

Quel

domingo, 22 de julho de 2018

Carta não enviada n° 29 - Retorno de Saturno

Caro(a) desconhecido(a),

Escrevo-lhe porque você reside em todos nós.
Esta semana, em um atendimento, perguntei a uma paciente "O que te faz querer viver?"
Eu não seria irresponsável ao perguntar sobre a vida, se não fosse para aprofundar em alguma sombra ou ampliar perspectivas.
Eu não seria eu também se esse não fosse um dos meus maiores enigmas e aquilo porque me procuram...
Quando criança eu pedia sabedoria. Sabia que era algo difícil, mas não recuava em pedir a Deus. Eu sempre tive interesse em saber de onde as coisas vêm, para onde vão. Eu sempre observei a natureza do meu quintal. Eu, quando criança, tentei  muitas vezes ajudar as roseiras nos seus ciclos, podando como meu pai fazia, mas muitas vezes não observava o tempo delas e matei inúmeras! Claro, não contei para ninguém! rs
Meus pais pouco entendiam meu dom de inter(ferir), quando eu tava mesmo era querendo descobrir, ser... O tempo de cada um é um ensaio para a sabedoria, entender o mundo e seus ciclos, a natureza e suas leis, as estações, a noite e o dia, tudo isso parece desvelar algum mistério de ritmo, de matemática, de cronologia.

Eu não poderia jamais experimentar uma religião só. Admiro quem consegue. Eu tinha muitas perguntas, ainda tenho. Eu sempre tive muita borboleta na corrente sanguínea! O mundo é grande e vasto. Deve ter uma lógica!
Assim pensam também os cientistas e filósofos, mas não sou nem cientista, nem filósofa. Sou um ser no mundo. Sou uma amante, uma apaixonada por Deus e pela sua criação misteriosa e amo o saber, amo a sabedoria.

Neste quando, sempre quando, onde estudo os cosmos e karmas, onde adentro nas ironias do destino, e nos anéis de saturno, sinto o tempo. O tempo fere, mas também cura, não sem a nossa responsabilidade. É sempre ela!

Quando eu li "A hora e a vez de Augusto Matraga" de Guimarães Rosa senti o tempo de uma personagem e seu ciclo. Quando escuto os capoeiras falando da mandinga do corpo, do ritmo, eles estão dizendo do universo... Quando vejo o meu amor bordando cores numa folha do inverno, sei que é de tempo e paciência que se fala.

A Astrologia me levou ao hinduísmo,  aos vedas e mantras. Lembro-me que a noção que eu sempre tive da vida se encontrou com o Samsara  (nome Hindu que se dá ao contínuo ciclo de nascimento, morte e renascimento) Assim vejo a vida. Espiral eterno de ciclos. Esta mesma filosofia converge com minha consciência cósmica de crer no (Brâhman = Espírito Cósmico).

Crer no que creio não me torna indutiva, universalista, isso nada interfere na vida dos outros, no tempo dos outros. Mas a sabedoria tem qualquer coisa a ver com isso... Com um respeito profundo a quem o outro é, sente, ao seu tempo, sua história, seus ciclos, suas sombras, suas memórias.

Abraço! Sem delongas mais.

Stella Graal
e Raquel


Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas" 










segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quem sabe

Quanto tempo leva para apagar o desejo?
Quanto tempo leva para as amnésias, tão alcóolicas, fazerem efeito?
Quanto tempo leva para o pescador pegar o timo da razão e vencer o mar?

Não importa quanto tempo demore
para picotar as memórias em ínfimos pedaços
De repente, tão de repente
O corpo sente de novo
e o corpo é sentido como jamais foi!
Outra vez.

Outra vez
água fervente
lama, lodo, chama
inferno!
Inverno...
O frio e o calor

Não adianta achar que se está imune
A certeza é uma mãe que só pune
Eu tenho fome e sede
E é como se eu caminhasse sem ser vista
nas proximidades da Estação da Luz de SP
perdendo o jeito de viver.
Morrendo de amor por inteiro.

Quem sabe, talvez, a palavra,
me salve.
Outra vez.

(Raquel Amarante)





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

À sombra das mangueiras

Os rascunhos que fazíamos
toda aquela história em diagramas
dá pra deixar pro vento.

os anéis e alianças
só existem
pra cair no chão.

ainda mora, à sombra das mangueiras
algumas cicatrizes de tempo
invisíveis
em evidência.

Alguém chama meu nome lá fora
e eu,
aqui dentro
repetindo as mesmas vestes
inadequadas
Força do hábito.
Coisa de velho.

Eu não tenho a menor ideia
de como usar as espadas que tenho.
Ainda há fragmentos
de assassinato na memória.

Mas é preciso alguma revolução
pra mudar essa história.
Cores rubras
Lágrimas
alguma fé, quiçá,
aquela canção de toda hora.

Talvez as horas
Me tornem sensível
Talvez a natureza
Me leve há alguma fluência
Talvez a razão
Me reconduza impassível
Talvez, quem sabe, o horizonte
Me transfigure.


(Raquel Amarante)



Idade do Céu - Paulinho Moska





terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Redesenho

Pobres rascunhos de vida
esquecidos numa gaveta qualquer
que insistem em avisar 
que a potência não pode acabar
no extremo de nenhum lugar.

Pobres rascunhos de vida
com cores tão vibrantes e festivas
que insistem em carnavalizar.
Se não há liberdade e invenção,
O coração se esvaziará...

Pobres rascunhos de vida
quando têm medo da juventude,
da Diversidade e do Desejo
E seguem em vida tolhida
Num destino trôpego, amiúde.

Traz à tona os papéis
tão livres, tão essenciais.
As tintas, os pincéis
os poemas, o sabor
a beleza, o redesenho.

Só assim...




quinta-feira, 9 de novembro de 2017

1995

Desconfio
que de vez em quando
é necessário
pertencer a este vazio...
Aos tons mais agudos do piano
À melancolia da noite fria
Ao silêncio
À fantasia

Acho que sou sim cristã
em demasia.

Sem cruz na parede
Mas com cultivo de alguma
resignação.
algumas lágrimas
alguns segredos
Todos muito solenes
Todos muito pátrios
Todos muito presentes
e alguma lembrança, sim
das paredes.

Às vezes eu preciso me lavar por inteiro
As vezes preciso chorar feito mãe quando recebe a notícia do filho...

Eu, desenharia tudo de novo.
A escola, as crianças, os livros
Eu viveria como vivi
Tenho muitas memórias que já esqueci.
Mas eu tenho tudo muito guardado.
Num baú
Num espelho
Num aconchego.
O velho espaço minúsculo no quarto
O amor tão maiúsculo, tão vasto
As palavras ralé
Porque jamais
As palavras não dizem
As palavras viram poeira
Não há palavra!
Não saberiam girar como bailarina
Não saberiam deslizar a tinta no quadro
Não saberiam se aplicar ao que se sente
Nu e crú.
Ao amor
À perda
Às lembranças
À infância
Ao amor.

(Raquel Amarante)



Algum piano pra acompanhar:




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Sobre a morte e a Vida

Deve haver
algum trunfo
ao morrer.
Mas eu não quero
que estas palavras
tenham poder.
Deve haver
uma cor diferente
que eu me recuso
a enxergar.
Preferimos
o conforto
de onde a gente tá,
e o amor!
Ah, o amor...
O amor (re)ssuscita!
O amor é o que nos faz vivos!

(Raquel Amarante)



sábado, 21 de outubro de 2017

Algum crepúsculo



Saudades daquela mulher
que em mim existia.
Um pouco mais vulnerável
Um pouco mais envolvente
Um pouco mais fantasiosa
Um pouco mais apreensiva
Uma mulher repleta.

Primavera inteira de dúvidas

Saudades daquela mulher
que em mim existia.
Um pouco mais competitiva
Um pouco mais insegura
Um pouco mais relax
Um pouco mais alheia
Uma mulher pela metade.

Morava nela mesma

Do ventre daquela mulher
o enigma
Na varanda ela acompanha
algum crepúsculo.

(Raquel Amarante)






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