"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

"A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. " Clarice Lispector

sábado, 25 de junho de 2016

PRETA

Eu que não sei sua história
me proponho a escutar
Diga... Diga o que quiser dizer.
(...)
Seus afetos... Suas memórias...
suas crenças,  alegrias, suas lutas
suas sagas, suas iras, seus temores
seus desejos,  poesias,  seus amores,
suas revoltas, sua fé, sua origem
tão pura
simplesmente sua!

Eu, que te desconheço
não tenho do que lembrar
não te faria notícia
de jornal qualquer
eu que nunca fui
na tua pele - mulher
eu que não perdi nada
nesse jogo entre nascer e crescer
eu que não velei  negros corpos
filho - sobrinho - irmão - pai.

Eu que não tenho palavras! (...)

_ Eu tenho!
   E lhe falo
   quero celebrar o ayo de PODER SER PRETA!





domingo, 19 de junho de 2016

Estranha

                                   à Thereza

quando me dizem: estranha
sinto-me dentro de um oculto vestido
com abotoaduras dorsais incapazes de alcance
alfaiataria manual, molde antigo.

estranha, quando me dizem,
sinto a imensidão desse adjetivo...
sei que não caibo no pasto, na tendência
vivo interrogando o porquê de estar vivo...

quando estranha, me dizem
sei que estou aquém do esperado
feito vestido rasgado por anárquicas traças.
quem me costura? quem curará minha loucura?

sei também que eu me estranho
como quem se olha no espelho
               no escuro
               - vê o vão -
guardo o incompreensível na lembrança
escrevo na esperança de advir algum elo...
desse já desbotado, mas belo - Mistério -
-linho-onde-se-fia-inspiração-

(raquel amarante)

Salvador Dalí - 1945 - "Mi mujer desnuda"

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Um país sem livros

Que pena!
que a cena
é de livros queimados.
Muitas desesperanças
couberam às paginas acolhimento.
Muitas também lembranças
da infância e suas nostalgias.
Muitos amores e mágoas
compondo sorrisos nos olhos
de que lhes lia.
Muitos desejos datilografados
rimas paupérrimas, emoções insignes!
Muita ressureição
no terceiro, quarto ou
vigésimo primeiro dia.

Mas que pena!
que a meta é cortar os punhos
de quem escreve
de quem permite pensar
o peso como leve...
de quem apoia a greve
e não se cala na sala de jaula...
Que pena!
Que continuam inquisidores
os tribunais, os parlamentos,
os homo sapiens
queimando o sexo com as palavras
o sexo com as ideias
porque não é simplesmente
sexo por reprodução.
por ser transa mesmo!
por escorrer porra da letra!
pela ejaculação espetacular de ideias!
por orgasmos múltiplos de teorias safadas
que se safam dessa moral hipócrita
aturdida pelos livres
digo, livros.

Que pena!

(Raquel Amarante)








quinta-feira, 28 de abril de 2016

Pousse à la femme (Empuxo-à-mulher)

Ao passo que sobe o elevador...
é leve a dor ou ela eleva?
a cada andar, até o oitavo.
Impasse - tantos espelhos!
Eleva a dor ou ela é leve?
Leves cabelos
Leves andares
Ao passo que a nudez 
se descabela, e a beleza dela 
é bela - impasse!
Não se nasce
mulher - mas também Elo
sê-lo ela, também ela sê-la
s(elo) - postal - carta
sem endereço
senão o próprio sexo
sem nexo - espelho convexo
deslocaliza, desfoca, desvaria
estranho sentido - entranhas
sem razão, faz coração
ser hipérbole
 -   estranho   -
conforme as leis
   sem leis
 do empuxo.

(Raquel Amarante)


Pintura do Gustav Klimt -  "Water Snakes II"







sábado, 19 de março de 2016

Versos soltos no espaço

Sou uma chuva de paradoxos
que chove e seca os céus e terras.
Céus e terras é tom tão religioso...
que me regenero em ser barroco.
Tão apegado ao deus-tempo
Tão flagelado pelas horas que se repetem.

Sou Maiusculamente Romântica
Sentimental, escapista, do ideal.
Namoro o medo do amor, mal secular...
Inatingível. Confessional. Cá estou lá...

Meu realismo é tão psicológico
que vago pela imensidão de motivos
e compreendo demais quem amo
e quem não amo.
Perdoo antes do erro.
Conserto o que não está quebrado.
Estou me curando desse assédio à perfeição
E não pontuo mais direito
Não grafo direito, não faço desenhos parnasianos.
O modernismo me trouxe à desconstrução
Sou um prédio em ruínas de estruturas sólidas...
Calcadas no Bom, no Belo e Verdadeiro.
Tenho sintomas de equilíbrio.
Tenho breves estados ébrios
Tenho ferozes causas!
De tantas poesias e prosas,
me endereço feito carta
ao universo  desconhecido
Sou eu e o mundo
jogados no espaço
e a alteridade das estrelas...


(Raquel Amarante)

domingo, 17 de janeiro de 2016

Mercúrio retrógrado e a chuva (Composição: samba)

Vem quando quiser,
mas vem!
Vem quando quiser,
mas vem!
A peleja diária
de quem não te tem
que lava a pele
com lágrimas
que colhe poeira
nas rugas da terra Árida
é a vida
de quem não te tem.

Vem quando quiser,
mas vem!
Vem quando quiser,
mas vem!


Nos céus o retorno
de quem comunica que vem,
se hospeda, fica à  vontade
a casa é sua meu bem.
Sei que não se limita
fala a linguagem fluídica
entra pra lá e pra cá
alguns dizem "você não convém!"
Eu te digo: Vem,
quando quiser,
mas vem!

Vem quando quiser,
mas vem!
Vem quando quiser,
mas vem!

:)





quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Como é triste realizar um sonho

como
é triste
realizar
um sonho.


concluir
o que                                                  de longe,
parecia in al cansável.

Mas que então,
tornou-se real.
e a realidade....
a realidade é dessas coisas cinzas
realidade é coisa urbana
nada mais concreto que o concreto
cidade é um trem perturbador
coisa que não sonha
coisa que não dorme

como é triste
realizar um sonho.

(raquel amarante)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

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