segunda-feira, 22 de julho de 2019

Corpo, alma, coração

Tem vezes que a gente esquece o corpo e alma e só quer viver o coração. Tem vezes que a gente esquece a alma e o coração e só quer viver o corpo. Tem vezes que a gente esquece o coração e o corpo e só que viver a alma. Tudo que queiramos viver num gole só, com muita violência, nos revela nossas mais intensas vulnerabilidades e correntes. Mas quem nos torna vulneráveis? Quem nos acorrenta?
Enquanto não tomarmos consciência da nossa sombra, estaremos repetidas vezes projetando no outro coisas muito nossas.
Negamos nossa sombra e ela é escancarada.
Fingimos que ela não existe e ela abraça forte.
A sombra começa na repressão... Tudo que reprimimos para agradar alguém. Nos aspectos mais íntimos de nossa história as vezes se torna intocável o mais profundo desejo. Quantas vezes acordamos com aqueles sonhos que nos deleitam mas que acabam sendo silenciados, apagados, intocados para preservação de um status quo? Quantas vezes tentamos fazer caber, quando não cabe? Viver é por si só um trem sem cabimento... "É por nossas virtudes que somos mais bem punidos" diria Nietzsche.
Há um pouco de sombra também no ascendente... Não basta não sermos, temos que ser convincentes... Temos que mostrar para o outro que somos. A sombra mora no rosto e em toda imagem que criamos para agradar os outros. Como nem tudo que reluz é ouro, ninguém pode ser julgado pelo que não conseguiu manter ou ser, mas as consequências chegam de todo modo. No fundo padecemos de um grande desconhecimento de nós mesmos.  Todavia, fingir que o mal não existe é a grande questão da nossa sombra, a lembrar que todos alguma tem. Aquilo que nos foi trazido, educado como negativo, que temos conosco e não queremos jamais admitir, enxergar em nós, aí está a grande sombra. Dela surgem nossas maiores projeções... Os outros isso, os outros aquilo, quando na verdade não reconhecemos em nós nossas violências, mentiras, culpas, medos, desejo de poder e aplausos, repressões, traições, corrupções.
Não reconhecer a sombra nos faz escravos dela e de projeções. A sombra negada no corpo projeta no coração e na alma. A sombra negada na alma projeta no corpo e no coração. A sombra negada  no coração projeta no corpo e na alma. Corpo, alma e coração precisam ser conhecidos e reconhecidos em suas luzes e sombras.
O homem só é capaz de ser ético quando tem clareza do que ele é e quer no profundo de sua verdade e autenticidade, sem medinho do escuro ou negação.
"Conhece a ti mesmo" estava escrito no Templo de Apolo em Delfos. Ser verdadeiro é ser muito além do bem e do mal, é através, por meio deles, que se pode ser inteiro, integral.
Interroga-te a ti mesmo e "torna-te aquilo que és"
Os sonhos, sim, é claro, estão no cerne da questão!


(Raquel Amarante)



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Carta não enviada nº 30: Limite de Chandrasekhar ou Supernova

Ana Maria,

Dizem as más línguas que o gênero carta é a peça mais íntima, mais intrínseca, menos envernizada deste varal. Talvez por isso elas ocorram menos, mas quando ocorrem, é toca ou não toca, apoplexia em aorta, não se vive tamanho arroubo em vida medíocre. Eu estou num estado que já não entendo aquilo que entendo, pois estou infinitamente maior que eu mesma e não me alcanço... Sim, supostamente estou psicografando Clarice, porque as reticências dela dizem mais... 
Se eu fosse baiana eu lhe diria ôxi... Mas como não sou deixa eu lhe dizer uns trem... Fim de mês é enxame e onde há muito ferrão, há também muito mel... Nem sempre sabemos o que é melhor para nós, ou o que o futuro nos reserva... (Embora eu tenha notícias...rs) De que adianta eu saber que quando meu corpo aproxima o seu corpo sente? De que adianta todos aqueles status sigilosos de amor? De que adianta tentar saber com meus amigos como estou? De que adianta tanta gente falando, se metendo e você aí fervendo de paixão? Você pediu para eu ir, eu fui.  Eu desejei e acreditei até o último momento. Mesmo diante de tuas circunstâncias, mesmo brava eu te acolhi, te dei colo, carinho e amor. O amor foi a única coisa que resistiu e não se equivocou em mim. Resistiu a crueza do ressentir. Houve a decisão. Se chorei, xinguei, embriaguei ou me toquei em outros dedos, se me fechei, se me feri, se foi desilusão completa, ou sei lá, é a vida... A vida tem nas mangas seus eclipses pra mudar os ciclos. É mesmo a mudança a única certeza da vida... Se a cada palavra minha, cada texto, a morte sempre está presente... Se na minha existência esta sempre foi minha certeza mais certa, haveria de ser diferente?


Stella Graal

"O sertão cicatriza ...as almas excessivas"



(Supernova)



Conheça as demais cartas não enviadas do blog: 



Saiba mais sobre o gênero cartas do varal:



sexta-feira, 28 de junho de 2019

Pra você vê

Pega um sujeito fraquinho
desnutrido
e dá de mamar pra você vê...

Pega um sujeito frágil
mas com potencial
e trabalha em cada canto
no corpo e alma
e espera pra  você vê...

Pega um sujeito bonito
mas que não se vê no espelho
e começa a enxergá-lo
pra você vê...

Pega um sujeito fechado
e conduz-lhe às frestas do olhar
pra você vê...

Pega um sujeito malandro
e seja doce pra você vê...

Pega um sujeito complicado
e seja as fases do jogo
pra  você vê...

Pega um sujeito sensível
e seja inalcançável pra você vê...

Se pega no risco de ser
pra você vê...


(Raquel Amarante)





domingo, 23 de junho de 2019

Acaso não existe

Ontem o destino me tinha
na ponta dos dedos
um pássaro de brinquedo
brincando de ir e vir.
Hoje eu me tenho tão inteiro...
uma espécie em extinção
Não tão fácil de ser alvo
Na integridade, a salvo
construindo o ninho da estação...

Um pássaro como eu não morre
Porque morrer não me é novidade alguma
Um pássaro como eu voa sem deslumbramento
Porque eu sempre tive asas batendo no alto
Um pássaro como eu têm cânticos guardados no peito
cheios de amor, cheios de sonhos.
Um pássaro como eu
inacreditavelmente,
por ironia do destino,
ainda se surpreende...
Tá com o coração que não cabe no peito...
Tentando entender a surpresa que é a vida... o de repente
Feliz pelo que só poderia surgir, se apresentar, se manifestar
a partir do háDeus.

(Raquel Amarante)





sábado, 1 de junho de 2019

Podem pegar a camisa de forças

estou vivendo o presente de viver o presente
não sei se é loucura ou não
mas simplesmente não há futuro.

podem pegar a camisa de forças
podem apertar, amarrar, isolar, injetar
estou vivendo o presente de viver o presente.

eu não nasci ontem
eu vim da puta que pariu de um universo imenso
imagina eu ter que ser do tamanho de um sentimento
sendo que há tantos mares

eu sei que nasci pra morrer de intensidades
mas há tantas coisas...
há tantas notas neste violão para eu riscar os dedos
há tantas ondas para eu aprender a me jogar

podem pegar a camisa de forças
podem apertar, amarrar, isolar, injetar
estou vivendo o presente de viver o presente.

(Raquel Amarante)

Ouça: Descobridor de sete mares - Tim Maia


sexta-feira, 24 de maio de 2019

Será se...

Uma formiga agonizante na pia, remexe as pernas como se pedisse ajuda. Luta para viver. Luta para escapar. Como se desculpar com uma formiga que escolhe um caminho que ela nunca imaginaria que pudesse lhe matar? O que leva essa distraída, essa louca dessa formiga a se aventurar num braço humano assim?! Seria pra fugir da água? Seria para fugir de outro tipo de morte? Perdoe-me formiga, quando dei por mim já lhe tinha esfregado minha mão direita sem jamais imaginar que lhe atingiria os órgãos vitais. Não, não me sinto alguém maior, superior, um deus capaz de recortar seu ciclo de vida. Na verdade, sinto uma fatalidade tão profunda que parece que era minha vida ali extraída. Na verdade, me dói, você viu! Você viu que eu tentei de modo bem desajeitado uns primeiros socorros. Eu tinha uma esperança enquanto você mexia os membros inferiores de que haveria possibilidade de reatar a vida, você lutou por ela! Quem diria, nem eu, nem você, que a vida findaria ali, no mais simples e nu do cotidiano. Perdoe-me formiga. nem sei, nem sei o que dizer...

(Raquel Amarante)


Sugestão: Ler escutando Hey Joe - Jimi Hendrix

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Roda da Fortuna

Se o fogo testa a alma
e pede calma
e a terra finca os pés
atola os sonhos
se o nado é pesado
de braçadas
e o ar da graça
tornou-se rarefeito
se as leis de Moros
não podem ser lidas
a não ser por oráculos.
"Se nem mesmo os deuses
podem lutar contra anánkê"
É... É preciso fé...
e é preciso, também, o agora.
e escutar os mais velhos
mais bem afeiçoados
com a natureza.
de resto, o mundo gira.

(Raquel Amarante)