domingo, 17 de fevereiro de 2019

Gira mundo

Reciclo o amor
de 30, 90, 180 graus.
Quanto falta para mudarmos esse final?
Quantas páginas, quantos meses?

toda espera

se confusas deitadas no meio da tempestade
que caminhos escolhemos escorrer?
por onde fomos peregrinas de nós mesmas?
e se perguntarmos ao universo
se há poesia sem verso?
há  horizonte belo no horizonte?

quantas sandálias ainda vamos trocar?
quantos novos cabelos brancos?
quantos sóis? quantas luas? qual eclipse?


                                                                                       a vida passa


Eu te pergunto se haverá constância
você me diz 
.nunca houve.


Quais os benefícios da velhice?

Não temos cigarros 
Não temos cafés amargos
Não temos uma geladeira vermelha
e playlists de rock
Nus entendemos por algum feitiço.

São tantos os sagrados...
todos os santos evoco
sem saber se competem entre si

Será acordar um belo dia e buum!?
Será que é nadar nadar nadar nadar nadar...


Qual tecnologia?

Qual engenharia?

Qual credo?

O que fazer pra alcançar um              barco em mo vim  ento?

Um dia mergulho na lama
no outro,
 teus seios, pêlos, sabor, tua cama.

Ilusão?
Pode se iludir de amor
quem conhece seus olhos ternos
e seus desejos apimentados?
Creio que não!

A razão, os autores, o livre mercado
também passarão.

Gira
Gira
Gira mundo
arte metáfora
de sentir profundo!

Gira
Gira 
Gira mundo
Asas
de voar
pros mesmos rumos.

(Raquel Amarante)






segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Postal

Etiquetas não tenho
nem nas roupas
nem na mesa.
Mas se eu pudesse
minha vida seria uma encomenda
rumo ao lado de lá
com selos e carimbos
de quem se encaminha
de quem experimenta
respirar novos ares
novas crenças
novas presenças.

Etiquetas não tenho
nem nas roupas
nem na mesa.
E às vezes, nem sinal
a não ser dos pássaros
a não ser dos gafanhotos
a não ser das libélulas
a não ser de Deus.
e uma vontade de me endereçar
ao espiral do mundo
pra chegar a qualquer canto
pra sentar em qualquer meio fio
pra sentir aquelas saudades
e voltar
meia lua crescente
pr'algum ninho.

(Raquel Amarante)







terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O céu é o limite

Vazio do mundo
um eu tão profundo
num aquário.
O céu é o limite
ou o limite é o cel
ou será o cel o céu
e o limite limite mesmo?
O vazio é ilimitado
só sei.
Os sonhos tive que guardar
ou acho que perdi,
ou sei lá
Continuo inculta
arredia e teimosa 
Sei de muita coisa
E desconfio ainda mais ainda
o que não sei é o meu fundamental interesse
Tenho poucos livros hoje
Pouco tempo para lê-los
Uma vida medíocre capitalista.
Os sentidos me envolvem
A música precisa voltar para minha vida
Ou a morte é certa.
A apreciação da arte, das culturas, das filosofias
Sem elas, não há porque viver.

(Raquel Amarante)

domingo, 12 de agosto de 2018

Pai (a meu pai Antônio)

Me reconheço na brochura
de um caderno não escrito,
não lido, mas dito.
Concreto!
Pensar em você é ter na emoção
 um teto.
Posso chorar por te amar, me permito,
dizer talvez o que nunca foi dito
Bem dizer tudo que você é por ser
tão simples e tão complexo!
Por todo quanto amor desceu em seu suor
Pelo nó que dá quando enxergo na sua história
tal sobrevivência
tal fidelidade
tamanha verdade!
Honestamente,
me engrandeço por ser sua semente.
Nós dois somos áridos e ávidos
Basta uma gota no solo quente
amamos tão profundamente!

Àquele que me ensina sobre ser tão
desejo a chuva mais serena e os mais doces araçás!

Te amo, meu pai!

Quel

domingo, 22 de julho de 2018

Carta não enviada n° 29 - Retorno de Saturno

Caro(a) desconhecido(a),

Escrevo-lhe porque você reside em todos nós.
Esta semana, em um atendimento, perguntei a uma paciente "O que te faz querer viver?"
Eu não seria irresponsável ao perguntar sobre a vida, se não fosse para aprofundar em alguma sombra ou ampliar perspectivas.
Eu não seria eu também se esse não fosse um dos meus maiores enigmas e aquilo porque me procuram...
Quando criança eu pedia sabedoria. Sabia que era algo difícil, mas não recuava em pedir a Deus. Eu sempre tive interesse em saber de onde as coisas vêm, para onde vão. Eu sempre observei a natureza do meu quintal. Eu, quando criança, tentei  muitas vezes ajudar as roseiras nos seus ciclos, podando como meu pai fazia, mas muitas vezes não observava o tempo delas e matei inúmeras! Claro, não contei para ninguém! rs
Meus pais pouco entendiam meu dom de inter(ferir), quando eu tava mesmo era querendo descobrir, ser... O tempo de cada um é um ensaio para a sabedoria, entender o mundo e seus ciclos, a natureza e suas leis, as estações, a noite e o dia, tudo isso parece desvelar algum mistério de ritmo, de matemática, de cronologia.

Eu não poderia jamais experimentar uma religião só. Admiro quem consegue. Eu tinha muitas perguntas, ainda tenho. Eu sempre tive muita borboleta na corrente sanguínea! O mundo é grande e vasto. Deve ter uma lógica!
Assim pensam também os cientistas e filósofos, mas não sou nem cientista, nem filósofa. Sou um ser no mundo. Sou uma amante, uma apaixonada por Deus e pela sua criação misteriosa e amo o saber, amo a sabedoria.

Neste quando, sempre quando, onde estudo os cosmos e karmas, onde adentro nas ironias do destino, e nos anéis de saturno, sinto o tempo. O tempo fere, mas também cura, não sem a nossa responsabilidade. É sempre ela!

Quando eu li "A hora e a vez de Augusto Matraga" de Guimarães Rosa senti o tempo de uma personagem e seu ciclo. Quando escuto os capoeiras falando da mandinga do corpo, do ritmo, eles estão dizendo do universo... Quando vejo o meu amor bordando cores numa folha do inverno, sei que é de tempo e paciência que se fala.

A Astrologia me levou ao hinduísmo,  aos vedas e mantras. Lembro-me que a noção que eu sempre tive da vida se encontrou com o Samsara  (nome Hindu que se dá ao contínuo ciclo de nascimento, morte e renascimento) Assim vejo a vida. Espiral eterno de ciclos. Esta mesma filosofia converge com minha consciência cósmica de crer no (Brâhman = Espírito Cósmico).

Crer no que creio não me torna indutiva, universalista, isso nada interfere na vida dos outros, no tempo dos outros. Mas a sabedoria tem qualquer coisa a ver com isso... Com um respeito profundo a quem o outro é, sente, ao seu tempo, sua história, seus ciclos, suas sombras, suas memórias.

Abraço! Sem delongas mais.

Stella Graal
e Raquel


Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas" 










segunda-feira, 25 de junho de 2018

Quem sabe

Quanto tempo leva para apagar o desejo?
Quanto tempo leva para as amnésias, tão alcóolicas, fazerem efeito?
Quanto tempo leva para o pescador pegar o timo da razão e vencer o mar?

Não importa quanto tempo demore
para picotar as memórias em ínfimos pedaços
De repente, tão de repente
O corpo sente de novo
e o corpo é sentido como jamais foi!
Outra vez.

Outra vez
água fervente
lama, lodo, chama
inferno!
Inverno...
O frio e o calor

Não adianta achar que se está imune
A certeza é uma mãe que só pune
Eu tenho fome e sede
E é como se eu caminhasse sem ser vista
nas proximidades da Estação da Luz de SP
perdendo o jeito de viver.
Morrendo de amor por inteiro.

Quem sabe, talvez, a palavra,
me salve.
Outra vez.

(Raquel Amarante)





segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

À sombra das mangueiras

Os rascunhos que fazíamos
toda aquela história em diagramas
dá pra deixar pro vento.

os anéis e alianças
só existem
pra cair no chão.

ainda mora, à sombra das mangueiras
algumas cicatrizes de tempo
invisíveis
em evidência.

Alguém chama meu nome lá fora
e eu,
aqui dentro
repetindo as mesmas vestes
inadequadas
Força do hábito.
Coisa de velho.

Eu não tenho a menor ideia
de como usar as espadas que tenho.
Ainda há fragmentos
de assassinato na memória.

Mas é preciso alguma revolução
pra mudar essa história.
Cores rubras
Lágrimas
alguma fé, quiçá,
aquela canção de toda hora.

Talvez as horas
Me tornem sensível
Talvez a natureza
Me leve há alguma fluência
Talvez a razão
Me reconduza impassível
Talvez, quem sabe, o horizonte
Me transfigure.


(Raquel Amarante)



Idade do Céu - Paulinho Moska