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Carta não enviada n° 29 - Retorno de Saturno

Caro(a) desconhecido(a),

Escrevo-lhe porque você reside em todos nós.
Esta semana, em um atendimento, perguntei a uma paciente "O que te faz querer viver?"
Eu não seria irresponsável ao perguntar sobre a vida, se não fosse para aprofundar em alguma sombra ou ampliar perspectivas.
Eu não seria eu também se esse não fosse um dos meus maiores enigmas e aquilo porque me procuram...
Quando criança eu pedia sabedoria. Sabia que era algo difícil, mas não recuava em pedir a Deus. Eu sempre tive interesse em saber de onde as coisas vêm, para onde vão. Eu sempre observei a natureza do meu quintal. Eu, quando criança, tentei  muitas vezes ajudar as roseiras nos seus ciclos, podando como meu pai fazia, mas muitas vezes não observava o tempo delas e matei inúmeras! Claro, não contei para ninguém! rs
Meus pais pouco entendiam meu dom de inter(ferir), quando eu tava mesmo era querendo descobrir, ser... O tempo de cada um é um ensaio para a sabedoria, entender o mundo e seus ciclos, a natureza e suas leis, as estações, a noite e o dia, tudo isso parece desvelar algum mistério de ritmo, de matemática, de cronologia.

Eu não poderia jamais experimentar uma religião só. Admiro quem consegue. Eu tinha muitas perguntas, ainda tenho. Eu sempre tive muita borboleta na corrente sanguínea! O mundo é grande e vasto. Deve ter uma lógica!
Assim pensam também os cientistas e filósofos, mas não sou nem cientista, nem filósofa. Sou um ser no mundo. Sou uma amante, uma apaixonada por Deus e pela sua criação misteriosa e amo o saber, amo a sabedoria.

Neste quando, sempre quando, onde estudo os cosmos e karmas, onde adentro nas ironias do destino, e nos anéis de saturno, sinto o tempo. O tempo fere, mas também cura, não sem a nossa responsabilidade. É sempre ela!

Quando eu li "A hora e a vez de Augusto Matraga" de Guimarães Rosa senti o tempo de uma personagem e seu ciclo. Quando escuto os capoeiras falando da mandinga do corpo, do ritmo, eles estão dizendo do universo... Quando vejo o meu amor bordando cores numa folha do inverno, sei que é de tempo e paciência que se fala.

A Astrologia me levou ao hinduísmo,  aos vedas e mantras. Lembro-me que a noção que eu sempre tive da vida se encontrou com o Samsara  (nome Hindu que se dá ao contínuo ciclo de nascimento, morte e renascimento) Assim vejo a vida. Espiral eterno de ciclos. Esta mesma filosofia converge com minha consciência cósmica de crer no (Brâhman = Espírito Cósmico).

Crer no que creio não me torna indutiva, universalista, isso nada interfere na vida dos outros, no tempo dos outros. Mas a sabedoria tem qualquer coisa a ver com isso... Com um respeito profundo a quem o outro é, sente, ao seu tempo, sua história, seus ciclos, suas sombras, suas memórias.

Abraço! Sem delongas mais.

Stella Graal
e Raquel


Saiba mais sobre esta e as outras cartas: Sobre as "Cartas não enviadas" 










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